Lipedema: o que é e como diferenciar de gordura comum

Pernas de mulher de vestido azul caminhando descalça na beira da água, com a cidade ao fundo

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Pontos Principais

  • Lipedema é uma doença crônica da gordura sob a pele, que aparece quase só em mulheres e se acumula dos dois lados, nas pernas e às vezes nos braços.
  • Dor ao apertar, roxos fáceis e gordura que para no tornozelo, deixando o pé de fora, são os sinais que mais chamam atenção.
  • Lipedema não é o mesmo que obesidade, mas as duas aparecem juntas com frequência.
  • O diagnóstico é feito na consulta, pela história e pelo exame, porque nenhum exame confirma o lipedema sozinho.
  • Este é o primeiro post de uma série. No próximo, eu falo de tratamento.

Muita mulher com lipedema conhece esta frase: “Eu faço dieta, perco barriga, mas as pernas não mudam. E ainda doem.” Às vezes ela passa anos repetindo isso até alguém dar nome ao problema.

O lipedema foi descrito nos anos 1940 por dois médicos da Clínica Mayo, nos Estados Unidos, que notaram em mulheres um acúmulo simétrico de gordura nas pernas, com dor e um inchaço que poupava os pés. Mesmo assim, só ganhou código próprio na CID-11, a classificação de doenças da Organização Mundial da Saúde, que entrou em vigor em 2022. Neste post eu explico o que é, quais sinais apontam para ele e como diferenciar de gordura comum e de outros inchaços. O tratamento fica para o próximo post da série.

O que é lipedema

Um consenso mundial publicado em 2026 reuniu especialistas de 19 países, que chegaram a acordo em 59 afirmações sobre a doença. A definição que saiu de lá cabe numa frase: o lipedema é uma doença crônica do tecido gorduroso que fica embaixo da pele.

Em geral, ele aparece como um aumento simétrico da gordura nos braços ou nas pernas, dos dois lados, junto com dor ou desconforto. O acúmulo é desproporcional: as pernas ficam bem mais grossas do que o tronco faria esperar.

As pernas são as mais atingidas, dos quadris aos tornozelos. Os braços também podem entrar, sempre dos dois lados.

Os sinais que mais chamam atenção

Pelo consenso e pelas revisões recentes, os sinais mais típicos são:

  • dor ou sensibilidade ao apertar ou ao esticar a pele das áreas atingidas, em geral uma dor surda, que piora depois de muito tempo em pé ou andando;
  • sensação de peso ou de inchaço nas pernas;
  • roxos que aparecem com pouco ou nenhum trauma;
  • gordura que para de repente no tornozelo ou no punho, como um punho de camisa, deixando pés e mãos de fora;
  • pernas que mudam pouco com a dieta, mesmo quando a barriga diminui;
  • ao toque, uma gordura com pequenos nódulos, que lembram grãos de areia.

Dois sinais costumam faltar. O primeiro é a marca que fica quando se aperta a pele inchada com o dedo, comum em outros tipos de inchaço. O segundo é o sinal de Stemmer: no linfedema, a pele na base do segundo dedo do pé fica tão grossa que não dá para pinçar e levantar; no lipedema, dá.

Quem tem lipedema

O lipedema atinge quase só mulheres. Em homens ele é raro, e quando aparece costuma estar ligado a alterações hormonais ou a doença grave do fígado.

O consenso aponta que mudanças hormonais podem disparar ou piorar o quadro, por isso ele começa ou piora com frequência na puberdade, na gravidez ou na menopausa. Em parte dos casos ele é hereditário e aparece em outras mulheres da família.

Quantas mulheres têm lipedema? Ninguém sabe ao certo. As estimativas vão de menos de 1% até 12% das mulheres adultas, e uma revisão de 2025 fala em cerca de 10%. A conta é difícil porque muitas nunca recebem o diagnóstico.

O consenso cita ainda duas condições que parecem aparecer mais em quem tem lipedema: o hipotireoidismo e as articulações muito flexíveis, a chamada hipermobilidade. Uma revisão brasileira de 2026 cita um levantamento na Suécia com 245 mulheres com lipedema em que 1 em cada 5 tinha hipotireoidismo, e conta que a hipermobilidade aparece em até metade das mulheres com lipedema. Já a revisão de 2025 que estimou os 10% associa o lipedema a menos mobilidade, artrose e trombose nas veias.

Lipedema, obesidade ou linfedema?

Essa é a confusão mais comum, e ela custa caro: anos tentando emagrecer as pernas com dieta, sem resultado e com culpa.

Desenho comparando a distribuição da gordura: no lipedema, a gordura se acumula nos quadris e nas pernas, dos dois lados, e para no tornozelo, com cintura e pés finos; na obesidade, a gordura se espalha pelo corpo todo, inclusive na barriga
Característica Lipedema Obesidade Linfedema
Onde acumula Pernas e às vezes braços, dos dois lados Corpo todo, inclusive barriga Em geral, um lado mais que o outro
Pés e mãos Ficam de fora Podem engordar O pé costuma inchar
Dor ao apertar Sim, com roxos fáceis Em geral, não Mais peso do que dor
Marca ao apertar com o dedo Em geral, não Não Pode ficar
Com a dieta As pernas mudam pouco A gordura diminui A dieta sozinha não resolve o inchaço

Lipedema e obesidade juntos

O consenso de 2026 deixa claro que o lipedema não é uma complicação da obesidade, mas que a obesidade aparece junto com frequência. Quando as duas se somam, os sintomas do lipedema tendem a piorar.

O índice de massa corporal, o famoso IMC, ajuda pouco a separar uma coisa da outra, porque não mostra onde está a gordura nem separa gordura de músculo. Expliquei isso no post sobre composição do corpo. Para avaliar a obesidade, o consenso sugere usar a relação entre a cintura e a altura, que olha para a barriga, onde o lipedema não costuma atuar.

Médicos alemães descreveram 13 mulheres que fizeram cirurgia bariátrica, perderam em média mais de 50 kg e continuaram com as pernas doloridas. Só depois da cirurgia elas receberam o diagnóstico de lipedema.

E o linfedema?

O linfedema é um inchaço causado por falha da drenagem da linfa. Ele costuma atingir mais um lado do que o outro, pega o pé e dá sinal de Stemmer positivo. Com o tempo, o lipedema avançado também pode afetar a drenagem da linfa, e aí as duas coisas se misturam.

Outra causa de inchaço que anda junto é a insuficiência das veias, que, segundo a revisão brasileira, aparece em cerca de 1 em cada 4 mulheres com lipedema. Ela deixa marca ao apertar com o dedo perto do tornozelo, pode dar coceira, pernas inquietas e cãibras à noite, e costuma melhorar com as pernas para cima. Quando o inchaço é grande, também é preciso afastar doenças dos rins, do coração, do fígado e da tireoide.

Por que a gordura do lipedema é diferente

No lipedema, as células de gordura ficam maiores, o tecido vai ficando mais fibroso com o tempo e os pequenos vasos ficam frágeis, o que explica os roxos fáceis.

O consenso cita sinais de inflamação, a influência de hormônios e um possível excesso de líquido nesse tecido. Outra revisão de 2025 chama atenção para um detalhe curioso: as células de defesa nessa gordura são de um tipo diferente das da obesidade, e o metabolismo dessas mulheres muitas vezes parece preservado, mesmo com muita gordura nas pernas.

A revisão brasileira descreve um estudo que comparou mulheres com obesidade, com e sem lipedema, de mesmo peso e mesma quantidade de gordura. O grupo com lipedema tinha uma sensibilidade à insulina cerca de 48% maior. Comparadas a mulheres magras, porém, elas ainda tinham açúcar, triglicérides e colesterol piores, então não dá para falar em proteção.

Os hormônios femininos, principalmente o estrogênio, parecem ter papel central. Um grupo de pesquisadores brasileiros propõe que a menopausa seja um ponto de virada na doença, mas essa ainda é uma hipótese que precisa ser testada.

Como é feito o diagnóstico

O diagnóstico é clínico: depende da história, do exame das pernas e dos braços e de afastar outras causas. Segundo o consenso de 2026, hoje não existe exame de imagem, de sangue ou genético aprovado para confirmar o lipedema.

Alguns exames ajudam no caminho, mas nenhum fecha o diagnóstico sozinho:

  • medidas de cintura, quadril, altura e peso, que o consenso recomenda em toda avaliação;
  • a bioimpedância por segmentos, que pode mostrar gordura desproporcional nas pernas;
  • ultrassom, ressonância ou exame da drenagem da linfa, quando é preciso afastar linfedema.

Os estágios

O lipedema é dividido em estágios pela aparência da pele e da gordura: pele lisa com pequenos nódulos no começo, pele irregular e nódulos maiores depois, e dobras e deformidades nos estágios mais avançados. O consenso lembra que essa classificação não mostra o quanto a pessoa sofre e que nem todo mundo piora com o tempo. Existe também uma divisão pela região atingida, como quadris, coxas, pernas inteiras ou braços, que serve só para descrever o quadro.

O peso que não aparece na balança

O lipedema pode pesar na saúde mental e na qualidade de vida. Para o consenso de 2026, quando há sofrimento emocional, ele vem, na maior parte das vezes, dos sintomas, e não o contrário. E a espera por um diagnóstico só aumenta esse peso.

Essa espera é comum. A revisão brasileira cita uma pesquisa com 508 médicos na Turquia em que mais da metade disse não ter ideia de como o lipedema se apresenta, e outra, no Reino Unido, em que só 46% dos especialistas em vasos sabiam reconhecer a doença. Não é raro a mulher chegar ao nome da doença sozinha, pesquisando na internet.

A relação com a comida entra nessa conta. A vergonha do corpo e a dor podem levar a comer por emoção, e transtornos como a compulsão alimentar aparecem junto em parte das mulheres. Eles podem fazer o peso subir e piorar os sintomas, e merecem cuidado próprio.

Quando procurar avaliação

Se você se reconheceu nos sinais acima, leve essa suspeita ao médico. O exame das pernas, a medida da cintura e a composição do corpo ajudam a separar o que é lipedema do que é obesidade, e isso muda o plano. Se você usa caneta para emagrecer, vale ler também o que escrevi sobre canetas de emagrecimento.

Conclusão

O lipedema é uma doença crônica da gordura sob a pele que atinge quase só mulheres, com acúmulo dos dois lados nas pernas, dor ao toque, roxos fáceis e pés que ficam de fora. Ele é diferente da obesidade, embora as duas apareçam juntas com frequência, e a dieta sozinha costuma mudar pouco as pernas. O diagnóstico é feito na consulta, pela história e pelo exame. No próximo post da série, eu falo do que funciona no tratamento: dieta, exercício, compressão e cirurgia.

Abraço proceis, e até mais!


Médico responsável: Dr. Gilberto Nering Junior, médico do esporte, CRM-SP 160822, RQE 142486 (Medicina do Esporte).

Este texto não foi patrocinado, é informativo e não substitui a avaliação individual. Dúvidas sobre o conteúdo: contato da clínica.

Foto da capa: maks_d no Unsplash.

Perguntas frequentes sobre lipedema

Lipedema tem cura?

Não. O lipedema é uma doença crônica, e o tratamento busca aliviar a dor e os sintomas e evitar que o quadro avance. Falo das opções no próximo post da série.

Lipedema é a mesma coisa que obesidade?

Não. O lipedema é uma doença própria da gordura sob a pele, que se acumula nas pernas e às vezes nos braços, dói ao toque e muda pouco com a dieta. A obesidade pode aparecer junto e piorar os sintomas.

Como saber se eu tenho lipedema?

Pernas grossas dos dois lados, desproporcionais ao tronco, que doem ao apertar, ficam roxas com facilidade e param no tornozelo são sinais de alerta. A confirmação vem da avaliação médica, porque nenhum exame confirma sozinho.

Homem pode ter lipedema?

Pode, mas é raro. Quase todos os casos são em mulheres, e nos homens ele costuma estar ligado a alterações hormonais ou a doença grave do fígado.

Lipedema piora na menopausa?

Mudanças hormonais, como puberdade, gravidez e menopausa, podem disparar ou piorar o lipedema. Pesquisadores brasileiros propõem que a menopausa seja um ponto de virada na doença, mas isso ainda precisa ser confirmado.

Referências

  1. Cifarelli V. Lipedema: Progress, Challenges, and the Road Ahead. Obes Rev. 2025;26(10):e13953. doi:10.1111/obr.13953
  2. Cornely ME, Hasenberg T, Cornely OA, et al. Persistent lipedema pain in patients after bariatric surgery: a case series of 13 patients. Surg Obes Relat Dis. 2022;18(5):628-633. doi:10.1016/j.soard.2021.12.027
  3. Faria AM, Valerio CM, Barcellos CR, et al. Unraveling lipedema: comprehensive insights and the path to future discoveries. NPJ Metab Health Dis. 2026;4(1):3. doi:10.1038/s44324-025-00093-y
  4. Kruppa P, Crescenzi R, Faerber G, et al. Lipedema World Alliance Delphi Consensus-Based Position Paper on the Definition and Management of Lipedema: Results from the 2023 Lipedema World Congress in Potsdam. Nat Commun. 2026;17(1):427. doi:10.1038/s41467-025-68232-z
  5. Pinto da Costa Viana D, Caseri Câmara L, Borges Palau R. Menopause as a Critical Turning Point in Lipedema: The Estrogen Receptor Imbalance, Intracrine Estrogen, and Adipose Tissue Dysfunction Model. Int J Mol Sci. 2025;26(15):7074. doi:10.3390/ijms26157074
  6. Rabiee A. Lipedema and adipose tissue: current understanding, controversies, and future directions. Front Cell Dev Biol. 2025;13:1691161. doi:10.3389/fcell.2025.1691161