Parei de tomar Ozempic ou Mounjaro: vou engordar de novo?

Canetas de Ozempic, Mounjaro e Wegovy lado a lado sobre um fundo claro

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Pontos Principais

  • Na maioria das pessoas, o peso volta depois de parar a caneta de emagrecimento. Nos estudos, entre metade e dois terços do que foi perdido voltou em cerca de um ano.
  • A volta começa rápido, nos primeiros meses, porque a fome e o corpo voltam a trabalhar a favor do peso antigo.
  • Pressão, açúcar e colesterol tendem a piorar junto com o peso que volta.
  • Em um estudo, quem somou exercício à caneta terminou mais leve, um ano após o fim do tratamento, do que quem usou só a caneta. Durante o tratamento, treino de força e proteína são o cuidado recomendado para proteger o músculo.
  • Parar é uma decisão para planejar com o médico, e para muita gente o tratamento é de longo prazo.

Parei de tomar Ozempic ou Mounjaro, vou engordar de novo? Essa pergunta sobre as canetas de emagrecimento aparece muito, e quase sempre depois do resultado. Para a maioria das pessoas, a resposta é sim: boa parte do peso volta no primeiro ano sem o remédio. No post sobre canetas de emagrecimento, falei de como elas funcionam, dos efeitos colaterais e, de passagem, do que acontece ao parar. Aqui vou detalhar essa parte, o famoso efeito rebote: quanto peso volta, por que volta, o que acontece com a saúde e o que fazer para parar com menos prejuízo.

Quanto peso volta ao parar a caneta de emagrecimento

Nos estudos, quem parou a caneta recuperou entre metade e dois terços do peso perdido em cerca de um ano, enquanto quem continuou seguiu perdendo ou manteve o resultado. A melhor forma de saber o que acontece ao parar é um tipo específico de estudo. Todos os participantes usam o remédio por um tempo e, depois, uma parte continua com ele e a outra passa a receber uma injeção sem remédio, sem saber qual das duas está tomando. Os estudos da semaglutida e da tirzepatida seguiram esse desenho.

No estudo STEP 4, da semaglutida, a substância do Ozempic e do Wegovy, os participantes usaram o remédio por 20 semanas e perderam em média 10,6% do peso. Depois, 803 deles foram sorteados entre continuar e trocar pela injeção sem remédio. Nas 48 semanas seguintes, quem continuou perdeu mais 7,9%. Quem trocou ganhou 6,9% de peso e devolveu mais da metade do que tinha perdido.

No estudo SURMOUNT-4, da tirzepatida, a substância do Mounjaro (que comparei com a semaglutida no post sobre qual caneta emagrece mais), a perda média foi de 20,9% do peso em 36 semanas, e 670 pessoas foram sorteadas entre continuar e parar. No ano seguinte, quem continuou perdeu mais 5,5%. Quem parou ganhou 14% de peso e devolveu pouco mais da metade do que tinha perdido. Ao final, 9 em cada 10 pessoas que continuaram mantinham pelo menos 80% do que tinham perdido, contra menos de 2 em cada 10 entre as que pararam.

Gráfico do estudo SURMOUNT-4 com 670 pessoas: em 36 semanas de tirzepatida, a perda média foi de 20,9% do peso; na semana 88, quem continuou estava em média 25,3% abaixo do peso inicial e quem parou, 9,9% abaixo.
Quem continuou a tirzepatida seguiu perdendo. Quem parou recuperou boa parte do peso.

Um terceiro estudo, a extensão do STEP 1, acompanhou pessoas que pararam a semaglutida e também o programa de dieta e exercício do estudo. Em um ano sem tratamento, elas recuperaram cerca de dois terços do peso que tinham perdido.

Uma revisão de 2025 juntou 8 desses estudos, com 2.372 participantes. Quem parou a semaglutida ou a tirzepatida recuperou em média quase 10 kg. Com a liraglutida, uma caneta mais antiga e de efeito menor, o reganho médio foi de cerca de 2 kg, porque a perda também tinha sido menor. Nos estudos em que a perda foi maior, o reganho também foi maior.

Estudo Remédio O que aconteceu ao parar
STEP 4 (2021) semaglutida devolveu mais da metade do peso perdido em 48 semanas
SURMOUNT-4 (2024) tirzepatida devolveu pouco mais da metade em um ano
Extensão do STEP 1 (2022) semaglutida, sem a dieta e o exercício do estudo recuperou cerca de dois terços em um ano, e pressão, açúcar e colesterol voltaram em direção aos valores de antes
Estudo dinamarquês (2024) liraglutida, exercício ou os dois remédio com exercício terminou 5 kg mais leve que só o remédio; quem fez só exercício manteve o peso um ano depois

Por que o peso volta

Não é falta de força de vontade. Quando a pessoa emagrece, o corpo reage para tentar voltar ao peso antigo. A fome aumenta e hormônios que estimulam o apetite, como a grelina, ficam mais altos. Escrevi sobre essas e outras adaptações, como a queda no gasto de energia, no post sobre platô no emagrecimento.

Enquanto a caneta está agindo, ela segura a fome e esse empurrão do corpo quase não aparece. Quando o remédio sai, a fome volta de uma vez, enquanto o corpo ainda está com as adaptações da perda de peso, e essa combinação favorece o reganho. Por isso, segundo uma revisão de 2026, boa parte do peso volta nos primeiros meses sem o remédio.

Essa volta da fome pode aparecer antes da balança: pensar em comida com mais frequência, porções que vão crescendo sem perceber, beliscar entre as refeições ou à noite e menos sensação de estar satisfeito ao fim do prato. Reconhecer esses sinais cedo ajuda a ajustar o plano antes que o peso suba.

O que acontece com a saúde

Com a caneta, a saúde melhora junto com o peso: a pressão e o açúcar no sangue caem, a cintura diminui e o colesterol tende a ficar melhor. Quando o peso volta, a maior parte disso tende a se perder. Na extensão do STEP 1, que acompanhou quem parou a semaglutida, a maioria dessas melhoras foi se desfazendo e, um ano depois, estava voltando em direção aos valores de antes do tratamento.

A obesidade como doença crônica

Os autores da extensão do STEP 1 escreveram que os resultados confirmam que a obesidade é uma doença crônica. Com a pressão alta é parecido: ninguém se surpreende quando a pressão sobe ao suspender o remédio da pressão.

Para muita gente, o tratamento passa a ser de longo prazo, com acompanhamento e ajuste de dose. Para outras, faz sentido parar em algum momento, desde que seja com plano e acompanhamento.

Por que as pessoas param

Parar o tratamento é comum: num estudo americano de 2025, com dados de mais de 125 mil adultos, cerca de dois em cada três que usavam a caneta para emagrecer, sem diabetes, pararam em até um ano, e efeitos no intestino aumentaram a chance de parar. Os motivos são vários, e quase todos são legítimos:

  • o custo do tratamento;
  • efeitos colaterais, como enjoo e intestino preso, que às vezes não melhoram;
  • vontade de engravidar, que exige suspender o remédio antes, com orientação médica;
  • falta do remédio na farmácia;
  • a sensação de que o objetivo foi alcançado e o remédio não é mais necessário.

No último caso, o resultado costuma depender de o remédio continuar agindo. Quem parou no STEP 4 e no SURMOUNT-4, depois de já ter emagrecido bastante, recuperou boa parte do peso.

Antes de parar: prepare o terreno

Ainda não há estudo sobre o melhor momento de parar, e o que eu recomendo é não parar no meio da perda de peso. Quem usa a caneta também para o diabetes tem um cuidado a mais: sem o remédio, o açúcar no sangue sobe, e o ajuste do tratamento do diabetes precisa ser combinado com o médico com antecedência. Na hora de reduzir a dose, vale chegar com algumas coisas já organizadas:

  1. Peso estável há alguns meses, e não ainda em queda.
  2. Treino de força e exercício aeróbico já fazendo parte da semana, e não para começar depois.
  3. Uma rotina de refeições que funcione sem o remédio, com proteína e fibra, que ajudam a dar saciedade.
  4. Composição corporal e exames recentes, para ter um ponto de comparação.
  5. Um combinado com o médico sobre quanto reganho leva a reavaliar o plano.

Nada disso garante que o peso fique parado. Dessa lista, o exercício é o item com estudo por trás, e o resto é cuidado prático para a rotina funcionar sem o remédio.

Como parar a caneta com menos reganho

O papel do exercício

Um estudo dinamarquês testou o que acontece depois de parar, com e sem exercício. Os participantes perderam em média 13 kg com uma dieta de poucas calorias, sem remédio, e depois passaram um ano em quatro grupos: exercício supervisionado, liraglutida (uma caneta mais antiga, de aplicação diária), os dois juntos ou placebo, uma injeção sem remédio. Depois, todos pararam e foram reavaliados um ano mais tarde.

No ano sem tratamento, quem tinha feito só a liraglutida recuperou 6 kg a mais do que quem tinha feito só exercício. Contando os dois anos, quem combinou remédio e exercício terminou cerca de 5 kg mais leve do que quem usou só o remédio. Quem fez só exercício manteve o peso um ano depois de encerrar o programa.

Proteger o músculo durante o tratamento

Todo emagrecimento leva junto um pouco de massa magra, que inclui o músculo. No SURMOUNT-1, estudo da tirzepatida que mediu a composição do corpo, cerca de 75% do peso perdido foi gordura e 25% foi massa magra, a mesma proporção vista no grupo que emagreceu sem o remédio.

Músculo ajuda a manter o gasto de energia, a força e o controle do açúcar. Por isso, durante o tratamento, dois cuidados são recomendados:

  • treino de força regular, com aumento progressivo da carga;
  • proteína suficiente em todas as refeições, ajustada pela nutricionista.

Dose menor ou redução gradual

Uma revisão de 2026 cita estudos recentes em que continuar com uma dose menor pareceu segurar melhor o peso do que parar de uma vez. Já reduzir aos poucos até parar de vez ainda não tem estudo que mostre se ajuda a manter o resultado. Hoje, essa decisão é feita caso a caso, com o médico.

Acompanhar de perto os primeiros meses

Como o reganho é mais rápido no começo, os primeiros meses depois de parar são os que mais pedem acompanhamento. Na prática, ajuda:

  • pesar com regularidade e medir a cintura;
  • repetir a composição corporal para ver se o que volta é gordura ou músculo;
  • manter os horários e a estrutura das refeições que funcionaram durante o tratamento;
  • manter o treino, principalmente o de força;
  • dormir bem, porque noites curtas aumentam a fome, como expliquei no post sobre sono e perda de gordura;
  • ter um combinado com o médico sobre o que fazer se o peso subir de forma rápida, como voltar ao remédio ou ajustar o plano.

Quando voltar a usar a caneta

Se o peso sobe de novo sem o remédio, dá para voltar ao remédio sem culpa, como em qualquer doença crônica que dá sinal de novo quando o tratamento é suspenso. A decisão leva em conta o peso, a saúde, o custo e o que a pessoa conseguiu manter de hábitos. Quem ficou semanas sem aplicar costuma recomeçar por uma dose mais baixa, definida pelo médico, porque voltar direto à dose alta aumenta o enjoo e o vômito.

Conclusão

Na maioria das pessoas, o peso volta depois de parar a caneta de emagrecimento, e volta rápido: entre metade e dois terços do que foi perdido em cerca de um ano, com pressão, açúcar e colesterol tendendo a piorar junto. A fome e o corpo voltam a empurrar para o peso antigo quando o remédio sai. Em um estudo, quem somou exercício à caneta terminou o acompanhamento mais leve do que quem usou só a caneta, e treino de força e proteína ajudam a cuidar do músculo durante o tratamento. Parar é uma decisão para fazer com plano, e para muita gente o tratamento é de longo prazo.

Sem pressa e com constância. Um abraço proceis!


Médico responsável: Dr. Gilberto Nering Junior, médico do esporte, CRM-SP 160822, RQE 142486 (Medicina do Esporte).

Este texto não foi patrocinado, é informativo e não substitui a avaliação individual. Dúvidas sobre o conteúdo: contato da clínica.

Perguntas rápidas sobre parar a caneta de emagrecimento

Parei de tomar Ozempic ou Mounjaro e engordei, é normal?

Sim, é o que acontece com a maioria das pessoas. Nos estudos, entre metade e dois terços do peso perdido voltou em cerca de um ano, e o reganho foi maior onde a perda tinha sido maior.

Por que o peso volta tão rápido?

Porque a fome volta assim que o remédio sai, e o corpo ainda está com as adaptações da perda de peso, como mais apetite. Boa parte do reganho acontece nos primeiros meses.

Dá para parar de usar a caneta emagrecedora sem engordar de novo?

Algumas pessoas conseguem manter boa parte do resultado. No estudo dinamarquês, quem combinou a liraglutida com exercício terminou mais leve, um ano depois de parar, do que quem usou só o remédio. Treino de força, proteína e acompanhamento próximo nos primeiros meses ajudam.

Precisa reduzir a dose antes de parar?

Não existe uma regra definida: continuar com uma dose menor pareceu segurar melhor o peso do que interromper de uma vez, mas reduzir aos poucos até parar ainda não tem estudo que mostre se ajuda a manter o resultado. A decisão é feita com o médico.

Parei de tomar Ozempic, posso voltar a tomar?

Pode voltar, desde que com orientação médica: depois de algumas semanas sem aplicar, o médico costuma retomar por uma dose menor e subir aos poucos, como no começo do tratamento. Assim o enjoo tende a ser menor.

Vou precisar usar a caneta para sempre?

Não necessariamente, mas muita gente precisa de tratamento de longo prazo, como em outras doenças crônicas. O médico ajuda a decidir entre continuar, reduzir, parar ou voltar.

Referências

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