Lipedema na menopausa: por que pode piorar e o que fazer

Mulher de gorro rosa, blusa azul-esverdeada e legging preta caminhando de costas numa trilha de terra entre árvores

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Pontos Principais

  • Mudanças de hormônio, como puberdade, gravidez e menopausa, podem disparar ou piorar o lipedema.
  • A menopausa não é o gatilho mais comum: nos estudos, o lipedema começa ou piora mais vezes na puberdade.
  • Na menopausa, a gordura tende a ir para a barriga, enquanto o lipedema fica nas pernas e às vezes nos braços.
  • A ideia de que a menopausa é um ponto de virada do lipedema ainda é uma hipótese.
  • Não há prova de que a reposição hormonal melhore ou piore o lipedema, e a decisão segue a indicação da própria menopausa.

Este é o terceiro post da série sobre lipedema, e agora o assunto é o lipedema na menopausa. No primeiro, expliquei o que é o lipedema e como diferenciar de gordura comum. No segundo, falei do tratamento do lipedema, com dieta, exercício, meia de compressão e cirurgia.

As pernas pioraram quando a menstruação começou a falhar? A menopausa pode ter a ver com isso, e em algumas mulheres o lipedema só aparece depois dela. Mas há bastante coisa ainda em estudo, e vale separar o que se sabe do que é hipótese.

O que os hormônios têm a ver com o lipedema

O consenso mundial sobre lipedema, publicado em 2026, afirma que vários achados sugerem a participação dos hormônios na doença. O lipedema atinge quase só mulheres, e os poucos casos em homens costumam aparecer junto com alterações hormonais.

Os especialistas também concordam que mudanças hormonais podem disparar ou piorar o lipedema. Só que eles mesmos avisam: o mecanismo que liga os hormônios ao lipedema ainda não foi esclarecido.

Quando a gente olha para o momento em que o lipedema aparece ou piora, a puberdade lidera. Uma revisão de 2026 reuniu os números de diferentes estudos:

Gráfico com a faixa de resultados dos estudos sobre quando o lipedema começa ou piora: puberdade de 15,7% a 67,3% das mulheres com lipedema, gravidez e amamentação de 9,5% a 63,1%, menopausa de 1,9% a 21% e uso de anticoncepcional de 1,2% a 3,8%

As faixas são largas porque cada estudo perguntou de um jeito e acompanhou grupos diferentes. Mesmo assim, a menopausa aparece com números menores que a puberdade e a gravidez.

O que a menopausa muda no corpo

A menopausa é a última menstruação, que só se confirma depois de 12 meses sem menstruar. O período em volta dela, quando os ciclos ficam irregulares, se chama perimenopausa. Nessa transição, os ovários vão produzindo cada vez menos estrogênio.

A diretriz europeia de menopausa, de 2025, descreve o que acontece com o corpo a partir do fim da perimenopausa. A gordura total aumenta, inclusive a que fica dentro da barriga, em volta dos órgãos. A massa magra diminui, e o corpo passa a gastar menos energia. Junto com isso, a insulina começa a funcionar pior, o que aumenta o risco de diabetes tipo 2. Segundo a diretriz, cerca de 1 em cada 4 mulheres tem sintomas de menopausa que atrapalham bastante a vida, como fogachos e sono ruim.

Essa ida da gordura para a barriga pode acontecer mesmo sem ganho importante de peso, e a balança fica parada enquanto a cintura cresce.

Por que o lipedema pode piorar na menopausa

Em 2025, um grupo de pesquisadores brasileiros propôs um modelo para explicar por que a menopausa pode ser um ponto de virada no lipedema. A ideia é interessante, e eu vou simplificar bastante.

O estrogênio age nas células por meio de dois receptores, chamados alfa e beta, que funcionam como fechaduras diferentes para a mesma chave. Pelo modelo, o alfa protege a gordura: ajuda a insulina a funcionar e segura a inflamação. O beta faz quase o contrário. Na menopausa e no lipedema, o equilíbrio penderia para o lado do beta, o que favoreceria inflamação e endurecimento da gordura.

Há outro ponto curioso. A própria gordura consegue fabricar estrogênio. Segundo os autores, no tecido do lipedema essa fabricação local seria maior, e o estrogênio ficaria ativo por mais tempo. Por isso, mesmo com o estrogênio do sangue caindo na menopausa, a gordura das pernas continuaria recebendo estímulo.

Os autores comparam o lipedema com outras doenças sensíveis ao estrogênio, como a endometriose e o mioma. Essas costumam melhorar depois da menopausa. O lipedema, segundo eles, parece seguir em frente ou até piorar.

É uma explicação que faz sentido, mas é um modelo montado a partir de estudos de laboratório, de observação e de outras doenças. Os próprios autores escrevem que faltam estudos clínicos em mulheres com lipedema para confirmar o que propõem.

Lipedema que aparece depois da menopausa

O mesmo grupo de 2025 descreve casos em que o lipedema só aparece depois da menopausa, muitas vezes em formas mais intensas e que respondem pior ao tratamento. Isso vem de observação clínica, sem estudos que meçam quantas mulheres passam por isso.

Por isso, não dá para descartar o lipedema só porque a mulher já passou dos 50 e nunca teve o problema antes. Ao mesmo tempo, pernas que incham ou engrossam pela primeira vez nessa idade pedem avaliação para afastar outras causas, como problemas nas veias, linfedema, doenças do coração, dos rins ou da tireoide e efeito de remédios.

Gordura da menopausa ou lipedema?

Nessa fase, é fácil confundir as duas coisas. A menopausa leva gordura para a barriga, e o lipedema acumula gordura nas pernas. Elas podem acontecer ao mesmo tempo, e uma não exclui a outra. Os outros sinais estão no post sobre como diferenciar o lipedema da gordura comum.

Característica Gordura da menopausa Lipedema
Onde acumula Barriga e cintura Quadris, coxas, pernas e às vezes braços, dos dois lados
Dor ao apertar Em geral, não Em geral, sim, com roxos fáceis
Tornozelos e pés Sem mudança típica A gordura para no tornozelo e o pé fica de fora
Com dieta e exercício A barriga costuma responder As pernas mudam pouco

Para avaliar o excesso de peso em quem tem lipedema, o consenso sugere a relação entre a cintura e a altura, e não só o peso ou o IMC. A cintura mostra a gordura da barriga, que é a que mais cresce na menopausa e a que mais pesa no risco do coração e do diabetes.

E a reposição hormonal?

A pergunta é natural: se o estrogênio cai e o lipedema piora, repor estrogênio resolveria?

O consenso mundial responde com cautela: o efeito da reposição hormonal e do anticoncepcional sobre o lipedema ainda é incerto. Faltam estudos que tenham medido isso em mulheres com lipedema.

O que existe é bastante informação sobre a reposição na menopausa em geral. A diretriz europeia recomenda a reposição para sintomas que incomodam, como os fogachos, começando nos primeiros 10 anos depois da última menstruação ou antes dos 60. Ela também mostra efeitos no corpo: menos gordura dentro da barriga e uma distribuição de gordura menos concentrada no tronco, mas sem ganho de massa magra.

Uma revisão de 2025 juntou 17 estudos em que mulheres sem diabetes foram sorteadas para receber reposição ou placebo, mais de 5 mil no total, e mostrou que a reposição melhora a ação da insulina.

Por outro lado, a diretriz pede que toda mulher que começa a reposição seja informada do aumento do risco de câncer de mama. Entre as situações em que a reposição em geral não é indicada estão câncer de mama, trombose e doença ativa do fígado, e quem tem útero precisa de um progestagênio junto, para proteger o endométrio. A decisão pesa a história de cada uma.

O grupo brasileiro propõe a reposição com estradiol como peça central no lipedema da menopausa. É uma proposta que nasce do modelo deles e ainda não foi testada em mulheres com lipedema.

Eu vejo assim: hoje não há prova de que a reposição melhore ou piore o lipedema. Por isso, a decisão segue a indicação da própria menopausa, como os sintomas, a proteção dos ossos e os riscos de cada mulher, e o lipedema entra na conversa como mais um dado.

E as canetas de emagrecimento?

O modelo de 2025 também cita a tirzepatida, uma das canetas de emagrecimento, como opção promissora nessa fase. De novo, a base é o mecanismo, sem ensaio clínico em mulheres com lipedema. No post sobre qual caneta emagrece mais eu comparo as opções.

O que ajuda o lipedema na menopausa

A base do tratamento continua a mesma que expliquei no post sobre o tratamento do lipedema: alimentação ajustada, exercício e meia de compressão. A menopausa só acrescenta alguns cuidados.

Comece pelo peso. A revisão de 2026 faz duas observações práticas. Quando a mulher com lipedema também tem excesso de peso que precisa de tratamento, tratar a obesidade cedo pode ajudar a evitar que a doença chegue a fases mais limitantes. E grandes variações de peso em fases de mudança hormonal, como a menopausa, devem ser evitadas, porque podem piorar os sintomas. Por isso, um plano que você consegue manter vale mais do que uma dieta rígida abandonada em poucas semanas.

Depois vem o músculo. Como a massa magra cai na menopausa, o treino de força ganha ainda mais importância, e fortalecer pernas e panturrilhas ajuda a empurrar a linfa. Quem tem dor ou está acima do peso pode começar pela água ou pela bicicleta e aumentar aos poucos.

E vale olhar além das pernas: a menopausa aumenta o risco do coração e do diabetes, e isso merece acompanhamento próprio, com exames e medida da cintura.

Conclusão

Mudanças de hormônio podem disparar ou piorar o lipedema, e a menopausa está entre elas, embora a puberdade seja o gatilho mais comum. Na menopausa, a gordura tende a ir para a barriga e o músculo diminui, o que pode se somar ao lipedema das pernas. A ideia de que a menopausa é um ponto de virada da doença ainda é uma hipótese, e não há prova de que a reposição hormonal melhore ou piore o lipedema. Nessa fase, valem os cuidados de sempre, com atenção extra ao peso estável, ao treino de força e à saúde do coração.

Até a próxima, turma!


Médico responsável: Dr. Gilberto Nering Junior, médico do esporte, CRM-SP 160822, RQE 142486 (Medicina do Esporte).

Este texto não foi patrocinado, é informativo e não substitui a avaliação individual. Dúvidas sobre o conteúdo: contato da clínica.

Foto da capa: Giorgio Trovato no Unsplash.

Perguntas frequentes sobre lipedema na menopausa

Lipedema piora na menopausa?

Pode piorar. O consenso mundial diz que mudanças de hormônio, como a menopausa, podem disparar ou piorar o lipedema, embora o mecanismo ainda não esteja esclarecido. Nos estudos, a puberdade é o gatilho mais comum.

Lipedema pode começar depois da menopausa?

Pode. Um grupo de pesquisadores brasileiros descreveu, em 2025, casos que só aparecem depois da menopausa, muitas vezes mais intensos. Isso vem de observação clínica, e ainda não se sabe com que frequência acontece.

Reposição hormonal trata lipedema?

Não há prova disso. O consenso mundial diz que o efeito da reposição sobre o lipedema é incerto. A reposição tem indicação própria, como os sintomas da menopausa, e a decisão segue esses critérios.

Como saber se é gordura da menopausa ou lipedema?

A gordura da menopausa vai principalmente para a barriga. O lipedema fica nos quadris, coxas e pernas, dos dois lados, costuma doer ao apertar e deixar roxos fáceis, e para no tornozelo. As duas coisas podem existir juntas, e a avaliação médica ajuda a separar.

Exercício ajuda o lipedema na menopausa?

Ajuda. O exercício adaptado faz parte do tratamento do lipedema, e o treino de força ganha importância na menopausa, quando a massa magra diminui. Atividades na água e bicicleta são boas portas de entrada para quem tem dor.

Referências

  1. Faria AM, Valerio CM, Barcellos CR, et al. Unraveling lipedema: comprehensive insights and the path to future discoveries. NPJ Metab Health Dis. 2026;4(1):3. doi:10.1038/s44324-025-00093-y
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  5. Pinto da Costa Viana D, Caseri Câmara L, Borges Palau R. Menopause as a Critical Turning Point in Lipedema: The Estrogen Receptor Imbalance, Intracrine Estrogen, and Adipose Tissue Dysfunction Model. Int J Mol Sci. 2025;26(15):7074. doi:10.3390/ijms26157074