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Pontos Principais
- O tratamento do lipedema busca aliviar a dor e os sintomas e tentar evitar a piora, e junta alimentação, exercício e compressão.
- A gordura do lipedema resiste à dieta, mas perder peso alivia os sintomas quando há obesidade junto.
- Nenhuma dieta, suplemento ou remédio tem prova de que trata o lipedema em si.
- Exercício na água, caminhada e ioga estão entre as atividades recomendadas.
- Num estudo grande, a lipoaspiração reduziu a dor bem mais do que o tratamento conservador, mas as operadas tiveram mais problemas sérios de saúde.
No primeiro post da série eu expliquei o que é o lipedema e como diferenciar de gordura comum. A pergunta que vem logo depois é sobre o tratamento do lipedema: e agora, o que dá para fazer?
A resposta tem mais de um caminho, e nenhum deles é cura. Neste post eu passo pelo que os estudos mostram sobre alimentação, exercício, meia de compressão, drenagem, remédios e cirurgia, incluindo o primeiro grande estudo sorteado sobre lipoaspiração, publicado em 2026.
O que o tratamento do lipedema busca
Pelo consenso mundial de 2026, todo tratamento do lipedema tem como objetivo aliviar os sintomas e evitar ou atrasar a piora. Até agora, nenhum faz a doença desaparecer.
Os especialistas recomendam uma equipe com médico, fisioterapeuta, nutricionista e apoio psicológico, conforme a necessidade de cada mulher, e um tratamento conservador que junte alimentação e estilo de vida, compressão e exercício.
Um esquema que sirva para todas ainda não existe. Meias, faixas, terapia física, mudanças na alimentação, exercício e cirurgia já reduziram a dor em estudos, cada um com um tamanho e uma duração de efeito diferentes. A escolha depende da gravidade, das outras doenças e da preferência de cada mulher. Aprender a cuidar dos sintomas no dia a dia e ter apoio para lidar com a imagem do corpo também fazem parte do tratamento.
Alimentação: o que ajuda e o que não ajuda
A gordura do lipedema resiste à dieta, mas a alimentação continua contando. Quando há obesidade junto, perder peso alivia os sintomas, e o consenso sugere acompanhar principalmente a relação entre cintura e altura e entre cintura e quadril, mais do que o peso na balança.
Uma revisão de 2026 sobre nutrição no lipedema concluiu que hoje não existe dieta nem suplemento com prova de que trata a doença. Há estudos pequenos com algumas dietas, principalmente as de pouco carboidrato.
Dieta cetogênica
A dieta cetogênica, com muito pouco carboidrato e mais gordura, é a mais estudada. Uma revisão de 2024 juntou 7 estudos com 329 mulheres com lipedema, que seguiram esse tipo de dieta por cerca de 16 semanas. Em média, elas perderam perto de 8 kg e diminuíram cintura e quadril, e a sensibilidade à dor caiu um pouco.
Os autores avisam que os estudos eram poucos, pequenos e de qualidade apenas razoável, e a análise comparou as mulheres antes e depois da dieta, não contra outra dieta. Um estudo-piloto italiano com a versão mediterrânea da dieta cetogênica viu perda de gordura também nas pernas em 10 semanas, inclusive no grupo que fez só a dieta, mas com poucas pacientes.
Eu vejo a cetogênica como uma das opções. Ela precisa de acompanhamento, porque não serve para todo mundo, e de nada adianta um plano que você abandona logo.
Suplementos
Ômega-3, vitamina C, carnitina, cromo e outros aparecem com frequência em sites e consultórios. A revisão de 2026 e o consenso mundial concordam que a evidência para esses produtos é limitada.
Medir o gasto de energia
A mesma revisão de 2026 lembra que o peso e o IMC enganam no lipedema e que o gasto de energia precisa ser calculado com cuidado. O padrão-ouro para medir quanto o corpo gasta em repouso é a calorimetria indireta, e, para quando ela não está disponível, pesquisadores criaram uma fórmula própria para o lipedema. Escrevi sobre esse gasto no post sobre quantas calorias o corpo gasta parado.
Exercício para quem tem lipedema
O consenso recomenda exercício adaptado, e cita como exemplos a atividade na água, a caminhada e a ioga. Na água, a pressão provavelmente age como uma compressão natural nas pernas, e a flutuação diminui o impacto nas articulações. Como o calor costuma piorar o inchaço, uma piscina muito quente não é a melhor escolha para treinar.
Os objetivos do exercício no lipedema são manter a mobilidade, aliviar os sintomas e ajudar no controle do peso. O treino de força também entra. Uma revisão brasileira de 2026 cita um consenso italiano que dá ênfase às pernas e às panturrilhas, porque músculo forte ajuda a empurrar a linfa e diminui o inchaço.
A prova direta ainda é pequena. A mesma revisão descreve um estudo com 22 mulheres em que metade fez 6 semanas de treino aeróbico e de força, duas vezes por semana, com supervisão. No grupo que treinou, a dor, o inchaço e a força melhoraram, mas a diferença para o grupo que só recebeu orientação não foi grande o bastante para fechar a questão.
Quem tem dor nas pernas ou está acima do peso pode começar pela água ou pela bicicleta, que poupam as articulações, e aumentar o tempo aos poucos. Se você está começando, vale ler a diferença entre se mexer, treinar e competir.
Compressão e drenagem
A meia de compressão é uma das bases do tratamento. O consenso diz que ela reduz a dor e outros sintomas, principalmente quando vem junto com atividade física. O tipo e a pressão da meia são escolhidos com o médico, e ela pode ser usada também durante o exercício.
A drenagem linfática manual faz parte da chamada terapia física complexa, que junta compressão, drenagem, exercício, cuidado com a pele e autocuidado. O consenso faz um alerta: não há evidência de benefício da drenagem sozinha, porque ela só foi estudada junto com as outras partes. Nem toda paciente precisa de todos os componentes.
O consenso também afirma que o tratamento conservador alivia os sintomas enquanto é feito, mas o efeito não dura se ele para, e não há prova de que impeça a doença de avançar. Por isso ele precisa ser mantido.
E os remédios?
Até agora, nenhum remédio tem prova de que trata o lipedema. É isso que diz o consenso mundial, com apoio de mais de 90% dos especialistas.
As canetas de emagrecimento, como a semaglutida e a tirzepatida, chamaram atenção. Numa pesquisa online de 2026 com 2.719 mulheres com lipedema, mais da metade usava algum desses remédios, a maioria por causa do peso. Quem usava relatou menos dor e menos inchaço do que quem nunca usou.
Só que foi uma pesquisa de autorrelato: ela mostra o que as mulheres sentiram, sem um grupo sorteado para comparar. Hoje, a caneta faz sentido quando existe excesso de peso que precisa de tratamento, e o efeito no lipedema ainda precisa ser testado. Escrevi sobre qual caneta emagrece mais.
Cirurgia bariátrica não trata o lipedema
A cirurgia bariátrica pode ser indicada para a obesidade grave, mas não trata o lipedema. Num grupo de 13 mulheres descrito por médicos alemães, elas perderam em média mais de 50 kg depois da cirurgia, e todas continuaram com dor nas pernas.
Os autores sugerem que, quando as duas doenças existem juntas, a bariátrica só venha antes do tratamento próprio do lipedema se dieta e exercício falharam, se o IMC passa de 40 e se a paciente sabe que a dor pode continuar.
Lipoaspiração: o estudo que faltava
O consenso, escrito antes do LIPLEG, apontava a falta de estudos sorteados sobre a cirurgia. Em 2026, a revista The Lancet publicou o LIPLEG, feito em 11 centros na Alemanha.
Participaram 410 mulheres com lipedema nos estágios 1 a 3 e dor nas pernas de pelo menos 4 numa escala de 0 a 10. Antes do sorteio, todas fizeram tratamento conservador por até 7 meses. Depois, foram sorteadas para fazer lipoaspiração ou continuar no tratamento conservador. Em 12 meses, a dor caiu pelo menos 2 pontos em 68% das que fizeram a cirurgia, contra 8% das que seguiram só no tratamento conservador. A qualidade de vida também melhorou mais no grupo da cirurgia.
O preço apareceu nos efeitos indesejados. Quase metade das operadas teve algum, e 8% tiveram problemas sérios de saúde, contra 3% no grupo conservador. O acompanhamento de 3 anos ainda está em andamento.
Antes do LIPLEG, o que havia eram estudos sem grupo de comparação. Num deles, 60 mulheres operadas na Alemanha foram acompanhadas por 12 anos, e a melhora da dor, dos roxos e do inchaço se manteve, com menos necessidade de compressão e drenagem. A cirurgia não impediu mudanças de peso nesse período, para mais ou para menos.
O que o consenso recomenda para a cirurgia
- tratar primeiro a obesidade e as doenças metabólicas, quando existem;
- usar técnicas que poupam os vasos linfáticos;
- fazer com cirurgião que conhece bem o lipedema e o tratamento conservador.
O consenso lembra que essa lipoaspiração não é estética: o objetivo é aliviar os sintomas, e o tratamento conservador continua depois dela.
Resumo das opções
| Opção | O que os estudos mostram |
|---|---|
| Dieta cetogênica | Perda de peso e de medidas em estudos pequenos, sem prova de que trate o lipedema em si |
| Exercício | Recomendado pelo consenso, com estudos ainda pequenos |
| Meia de compressão | Reduz a dor e os sintomas, melhor junto com atividade física |
| Drenagem sozinha | Sem evidência de benefício |
| Canetas | Tratam o excesso de peso; o efeito no lipedema ainda não foi testado em estudo sorteado |
| Cirurgia bariátrica | Trata a obesidade grave, mas a dor do lipedema continua |
| Lipoaspiração | Menos dor em 12 meses que o tratamento conservador, com mais problemas sérios |
Conclusão
O tratamento do lipedema alivia a dor e os sintomas, sem curar. Alimentação ajustada, exercício e meia de compressão são a base, e perder peso alivia os sintomas quando há obesidade junto. Nenhuma dieta, suplemento ou remédio trata o lipedema em si, e a drenagem sozinha não tem prova de benefício. A lipoaspiração reduziu a dor bem mais do que o tratamento conservador no maior estudo sorteado feito até agora, mas as operadas tiveram mais problemas sérios de saúde, e por isso a decisão precisa ser bem conversada.
Até o próximo post, gente!
Médico responsável: Dr. Gilberto Nering Junior, médico do esporte, CRM-SP 160822, RQE 142486 (Medicina do Esporte).
Este texto não foi patrocinado, é informativo e não substitui a avaliação individual. Dúvidas sobre o conteúdo: contato da clínica.
Foto da capa: Drew Dau no Unsplash.
Perguntas frequentes sobre o tratamento do lipedema
Dieta cetogênica funciona para lipedema?
Nos estudos que existem, mulheres com lipedema perderam peso e medidas e tiveram um pouco menos de dor com a dieta cetogênica. Mas os estudos são pequenos e compararam antes e depois, sem outra dieta como controle, e ela não é a única opção. O melhor plano é aquele que você consegue manter.
Drenagem linfática resolve lipedema?
Não sozinha. A drenagem faz parte da terapia física complexa, junto com compressão, exercício e cuidado com a pele, e o consenso mundial diz que não há evidência de benefício quando ela é feita isoladamente.
Lipoaspiração cura lipedema?
Não cura, mas no maior estudo sorteado já feito, 68% das mulheres operadas tiveram uma queda importante da dor em 12 meses, contra 8% no tratamento conservador. Problemas sérios de saúde também foram mais comuns com a cirurgia.
Caneta de emagrecimento ajuda no lipedema?
Ela trata a obesidade, que muitas vezes aparece junto e piora os sintomas. Numa pesquisa de 2026, mulheres com lipedema que usavam caneta relataram menos dor e inchaço, mas ainda não há estudo sorteado que prove efeito no lipedema em si.
Qual exercício é melhor para quem tem lipedema?
O consenso mundial cita a atividade na água, a caminhada e a ioga. O treino de força também ajuda a manter os músculos. Quem tem dor ou está acima do peso pode começar pela água ou pela bicicleta. O mais importante é escolher algo que não aumente a dor e que você consiga fazer com regularidade.
Referências
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