PRP: o que é, como é feito e para que serve

Mãos com luvas segurando tubos de sangue sobre uma centrífuga

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Pontos Principais

  • PRP quer dizer plasma rico em plaquetas. É uma parte do seu próprio sangue, separada numa centrífuga e aplicada no local da lesão.
  • As plaquetas guardam substâncias que sinalizam inflamação e reparo. A ideia do PRP é levar essas substâncias em maior quantidade para onde o corpo não está conseguindo resolver sozinho.
  • A evidência muda muito de uma doença para outra. É mais consistente na artrose de joelho, favorável a médio prazo no cotovelo de tenista, e fraca ou negativa no tendão de Aquiles.
  • Desde julho de 2026, o CFM permite o PRP como tratamento complementar em quatro situações: artrose de joelho, doença do disco lombar, cotovelo de tenista e reparo de menisco.

PRP é a sigla de plasma rico em plaquetas, um preparado feito com o sangue do próprio paciente e usado em lesões de articulações, tendões e músculos. O sangue é coletado, passa por uma centrífuga, e a parte com mais plaquetas é aplicada no local da lesão. Até 2026, o Conselho Federal de Medicina (CFM) só permitia o uso em pesquisa. Em julho, regulamentou o PRP para quatro indicações.

O que é o PRP

O sangue tem uma parte líquida, o plasma, e três tipos principais de células: as hemácias, que levam oxigênio; os glóbulos brancos, que fazem a defesa; e as plaquetas, que ajudam a estancar sangramentos e fechar feridas.

As plaquetas são pequenas, mas carregam dentro delas grânulos cheios de substâncias que avisam o tecido que há um reparo a fazer. São os chamados fatores de crescimento, com nomes como PDGF, TGF-beta e VEGF. Eles atraem células de reparo, estimulam a formação de novos vasos e de matriz, que é a estrutura que dá forma ao tecido, e mexem no equilíbrio da inflamação.

No sangue, a contagem normal de plaquetas fica entre 150 mil e 450 mil por microlitro. O PRP é esse plasma com as plaquetas concentradas algumas vezes acima do normal. Como vem do próprio paciente, não há risco de rejeição nem de transmitir doença de outra pessoa.

Como o PRP age

O PRP funciona como um sinal químico concentrado, aplicado num lugar onde o reparo parou ou ficou desorganizado. O reparo continua sendo feito pelas células do próprio tecido. Os estudos de laboratório e clínicos apontam três efeitos principais:

  1. Os fatores de crescimento chamam células para o local e estimulam a produção de colágeno e de outros componentes do tecido.
  2. A inflamação diminui. Num ensaio chinês com 610 pacientes com artrose de joelho, o líquido da articulação de quem recebeu PRP tinha, seis meses depois, níveis mais baixos de duas substâncias inflamatórias (TNF-alfa e interleucina-1 beta) do que o de quem recebeu soro.
  3. Quando o PRP é ativado, forma-se uma rede de fibrina, a mesma proteína do coágulo, que serve de suporte para as células se fixarem e trabalharem.

O peso de cada efeito parece mudar com o tecido. No tendão, que costuma estar degenerado e com pouca circulação, a ideia é reativar um reparo que estacionou. Na artrose, o efeito parece ser mais sobre inflamação e dor do que sobre recuperar a cartilagem perdida.

Como é feito

Tudo acontece na mesma visita:

  1. Coleta: o sangue é tirado da veia do braço, como num exame comum. O volume varia conforme o sistema usado.
  2. Centrifugação: o tubo gira em alta velocidade na centrífuga, uma ou duas vezes. Como cada parte do sangue tem um peso diferente, elas se separam em camadas.
  3. Separação: as hemácias ficam no fundo. Logo acima fica uma faixa fina e esbranquiçada, rica em glóbulos brancos e plaquetas. Em cima fica o plasma, mais rico em plaquetas na parte de baixo e mais pobre na parte de cima. A fração usada depende do tipo de PRP que se quer.
  4. Aplicação: o PRP é injetado no local da lesão, de forma estéril. Em estruturas profundas ou de acesso difícil, a resolução do CFM pede que a aplicação seja guiada preferencialmente por imagem, como o ultrassom.
Tubo de sangue depois da centrifugação, com as camadas separadas: plasma pobre em plaquetas no topo, plasma rico em plaquetas logo abaixo, faixa de glóbulos brancos e plaquetas, e hemácias no fundo.
O que acontece no tubo depois da centrífuga: cada parte do sangue fica numa camada.

Nem todo PRP é igual

“PRP” virou um nome único para produtos bem diferentes entre si. Os sistemas de preparo variam na quantidade de sangue coletado, no número e na velocidade das centrifugações e na camada que é aproveitada. O produto final muda em pelo menos quatro pontos:

  • A concentração de plaquetas, que pode ir de pouco acima do sangue normal até várias vezes mais.
  • Os glóbulos brancos: o PRP pode ser rico ou pobre em leucócitos, conforme se aproveita ou não aquela faixa esbranquiçada do tubo.
  • A quantidade de hemácias que sobra no preparo.
  • A ativação: alguns preparos recebem cálcio ou trombina antes da aplicação para liberar os fatores de crescimento, e outros não.

Essas diferenças mexem no resultado. Na artrose de joelho, uma meta-análise de 2025 com 18 ensaios e 1.995 pacientes viu que o PRP mais concentrado, com cerca de 1 milhão de plaquetas por microlitro, aliviou a dor de forma perceptível em comparação com o placebo aos 3, 6 e 12 meses, e o menos concentrado não chegou a esse nível. Num estudo italiano com 253 pacientes, 15% dos tratamentos com menos plaquetas falharam, contra 3,3% nos grupos com concentração média e alta.

O problema é que muitos estudos nem informam o que foi aplicado. Pesquisadores criaram listas mínimas do que todo estudo com PRP deveria relatar, como a MIBO, de 2017, justamente para permitir comparar um estudo com outro. Na prática, vale perguntar ao médico como o PRP é preparado e se a contagem de plaquetas é conhecida.

Para que serve: o que os estudos mostram

O PRP é usado em muitas lesões, mas a qualidade da prova muda bastante de uma para outra, e o CFM só liberou parte delas.

Condição O que os estudos mostram Liberado pelo CFM
Artrose de joelho A evidência mais forte. Numa revisão de 62 ensaios com 4.969 pacientes, o PRP melhorou dor e função mais do que ácido hialurônico, corticoide e soro aos 6 meses Sim
Cotovelo de tenista (epicondilite lateral) O corticoide alivia mais no 1º mês, e o PRP passa à frente aos 3 e 6 meses. Estudos de qualidade baixa a moderada Sim
Reparo de menisco (na cirurgia) Em 354 pacientes, nova ruptura em 18,2% com PRP e 30,5% sem. Sem diferença nos questionários de dor e função Sim
Doença do disco lombar Um ensaio pequeno, com 47 pacientes, mostrou melhora de dor e função. Só em hospital-dia e por especialistas de coluna e dor Sim, com restrições
Tendão do ombro (manguito rotador) Oito ensaios com melhora de dor e função a longo prazo, com técnicas muito diferentes entre si Não
Lesão muscular aguda Resultados divididos. Uma revisão de 2026 mostrou volta ao esporte cerca de uma semana antes, com evidência limitada, e outra, de 2018, não confirmou benefício nos estudos mais rigorosos Não
Tendão de Aquiles Ensaio com 240 pacientes sem diferença para uma injeção simulada em 6 meses Não

Artrose de joelho

É onde há mais estudo e mais concordância. Além da revisão com 62 ensaios, o consenso europeu de 2024 da ESSKA, sociedade europeia de joelho e medicina esportiva, considerou o PRP uma possível primeira opção de infiltração para a artrose leve a moderada. Nem todo estudo concorda, e um ensaio australiano publicado no JAMA em 2021 não achou diferença entre PRP e soro. Vou detalhar o joelho num post próprio.

Cotovelo de tenista

Na epicondilite lateral, a dor na parte de fora do cotovelo, uma meta-análise de 2023 com 13 estudos comparou PRP e corticoide. O corticoide aliviou mais no primeiro mês, e o PRP foi melhor aos 3 e 6 meses. O corticoide age mais rápido, e o PRP leva mais tempo para fazer efeito.

Menisco e coluna

No reparo de menisco, o PRP é aplicado durante a cirurgia. Numa revisão de 2026, quem recebeu PRP teve menos casos de nova ruptura, mas os questionários de dor e função ficaram parecidos com os de quem não recebeu.

Na coluna, o PRP é injetado dentro do disco degenerado. O estudo mais citado é pequeno: 47 pacientes, com melhora de dor e função em 8 semanas, e a melhora da função se manteve por pelo menos um ano. Pela complexidade, o CFM só permite esse procedimento em ambiente de hospital-dia, feito por anestesiologista, neurocirurgião, ortopedista, radiologista intervencionista ou médico da dor.

Onde a prova ainda é fraca

No tendão de Aquiles, um ensaio britânico publicado no JAMA em 2021 comparou uma injeção de PRP com uma injeção simulada, em que a agulha não chegava ao tendão, em 240 pacientes. Em seis meses, os dois grupos ficaram iguais.

Na lesão muscular aguda, os estudos discordam. Uma meta-análise de 2018 com 374 pacientes não confirmou benefício quando olhou só para os estudos mais rigorosos. Outra, de 2026, com 474 pacientes, viu volta ao esporte cerca de uma semana antes com PRP, mas os próprios autores classificaram a evidência como limitada.

No tendão do ombro, uma meta-análise com oito ensaios viu melhora de dor e função a longo prazo, mas os estudos usaram preparos e comparações muito diferentes.

Nenhuma dessas três situações está entre as indicações liberadas pelo CFM. Nelas, o tratamento continua sendo a reabilitação bem feita e o controle de carga, como expliquei no post sobre dor na corrida.

O que o CFM liberou

Até julho de 2026, o CFM tratava o PRP como experimental para doenças de músculos, ossos e articulações. Na prática, só podia ser usado dentro de pesquisa aprovada por comitê de ética.

A Resolução CFM 2.464/2026, publicada em 15 de julho de 2026, permite o PRP como tratamento complementar na artrose de joelho, na doença do disco lombar, na epicondilite lateral e no reparo de menisco. A resolução também define regras:

  • O PRP tem que ser feito só com o sangue do próprio paciente, com rastreio do preparo e equipamentos regularizados na Anvisa.
  • Indicação, aplicação e acompanhamento são atos médicos.
  • O paciente assina um termo de consentimento que explica benefícios, limites, alternativas e riscos.
  • É proibido misturar PRP com células-tronco, concentrado de medula óssea ou gordura fora de pesquisa.
  • É proibido apresentar o PRP como cura, regeneração garantida ou substituto de cirurgia indicada.

É seguro?

Como o material vem do próprio sangue, as reações costumam ser leves. As mais comuns são dor, inchaço e manchas roxas no local nos primeiros dias. No ensaio do tendão de Aquiles, 97 dos 121 pacientes que receberam PRP e 73 dos 119 que receberam a injeção simulada relataram desconforto no local. O incômodo é comum mesmo sem PRP, e um pouco maior com ele.

Há situações em que o PRP não deve ser feito. A resolução do CFM proíbe o uso com infecção no local, câncer em atividade, plaquetas muito baixas ou alteração de coagulação sem correção. Em 2025, um grupo internacional de especialistas em injeções de plaquetas, o GRIIP, publicou 23 recomendações para pacientes com infecções, câncer ou doenças do sangue, quase todas baseadas na opinião dos especialistas, porque ainda há poucos estudos sobre isso. Esses pontos são revistos na consulta antes de indicar o tratamento.

Por que os resultados variam tanto

Uma revisão de 2026 publicada no American Journal of Sports Medicine resumiu as causas em três grupos:

  1. O produto: cada sistema entrega uma quantidade diferente de plaquetas, leucócitos e hemácias.
  2. A técnica: volume, número de aplicações, intervalo entre elas e se a agulha foi guiada por imagem.
  3. A doença: uma cartilagem gasta, um tendão degenerado e um músculo recém-rompido são tecidos diferentes, e o PRP não age igual nos três.

A isso se soma o paciente: idade, peso, fase da doença e o que se faz depois da aplicação.

O que esperar do tratamento

O efeito do PRP não é imediato como o de um corticoide. A melhora, quando vem, aparece ao longo de semanas, e a avaliação do resultado é feita depois de alguns meses. Nos dias seguintes à aplicação, oriento analgésico simples e evito anti-inflamatórios, que podem atrapalhar o funcionamento das plaquetas.

O PRP também não dispensa o resto do tratamento. Fortalecimento, ajuste de carga e, quando faz sentido, perda de peso continuam sendo a base, e o PRP entra como complemento.

Conclusão

O PRP é um concentrado do seu próprio sangue que leva para a lesão as substâncias de reparo guardadas nas plaquetas. Tem a evidência mais consistente na artrose de joelho, resultados favoráveis a médio prazo no cotovelo de tenista, evidência promissora no menisco e na coluna, e prova fraca ou negativa no tendão de Aquiles e na lesão muscular. Desde a resolução de 2026, pode ser usado no Brasil em quatro indicações, com regras de preparo, consentimento e acompanhamento.

Um abraço proceis e até o próximo post!


Médico responsável: Dr. Gilberto Nering Junior, médico do esporte, CRM-SP 160822, RQE 142486 (Medicina do Esporte).

Este texto não foi patrocinado, é informativo e não substitui a avaliação individual. Dúvidas sobre o conteúdo: contato da clínica.

Foto da capa: Malcolm Choong no Unsplash.

Perguntas rápidas sobre PRP

PRP é a mesma coisa que célula-tronco?

Não. O PRP é feito só com plasma e plaquetas do sangue. Células-tronco vêm de medula óssea ou gordura, são outro tipo de tratamento e, pela resolução do CFM, não podem ser misturadas ao PRP fora de pesquisa.

PRP é liberado no Brasil?

Desde julho de 2026, sim, em quatro situações: artrose de joelho, doença do disco lombar, cotovelo de tenista e reparo de menisco. Sempre como tratamento complementar, feito por médico e com termo de consentimento.

Quantas sessões de PRP são necessárias?

Depende da lesão e do preparo. Na artrose de joelho, estudos como o ensaio chinês com 610 pacientes usaram três aplicações com uma semana de intervalo, e o número é definido na consulta. Em tendões, muitas vezes se usa uma aplicação.

Fazer PRP dói?

A coleta é igual à de um exame de sangue. A aplicação costuma causar desconforto na hora, e dor e inchaço leves nos dias seguintes são comuns e passam sozinhos.

Em quanto tempo o PRP faz efeito?

A melhora não é imediata. Costuma aparecer ao longo de semanas, e o resultado é avaliado depois de alguns meses, junto com a reabilitação.

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